Nossa entrevistada desta edição é Lucimar Ramos Gonçalves, profissional que construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a Enfermagem Obstétrica, pela defesa da humanização do parto e pelo fortalecimento institucional da categoria no Piauí. Com atuação consolidada na docência, na assistência e no movimento associativo, Lucimar tornou-se referência na formação de enfermeiras obstetras e na construção de políticas voltadas à saúde da mulher.
Ao longo da carreira, participou ativamente da formação de turmas de Especialização em Enfermagem Obstétrica e da articulação de parcerias estratégicas para garantir campos de prática qualificados, contribuindo diretamente para a consolidação de um modelo de assistência pautado nas boas práticas e no protagonismo feminino. Sua atuação esteve ligada a importantes instituições de saúde do estado, colaborando para a implantação e o fortalecimento de Centros de Parto Normal e programas voltados à humanização do nascimento. E autora do livro “A arte de partejar e a sua interface com a Abenfo-PI”
Integrante da diretoria da ABENFO-PI (gestão 2022–2024), Lucimar também teve papel relevante na mobilização política da categoria, defendendo a valorização da enfermeira obstetra e a ampliação de seu espaço de atuação no Sistema Único de Saúde. Sua trajetória se entrelaça com momentos históricos da Enfermagem Obstétrica no Piauí, incluindo a realização de congressos, projetos de qualificação profissional e iniciativas voltadas à redução da morbimortalidade materna e neonatal.
Comprometida com uma formação ética, técnica e sensível, Lucimar acredita que a Enfermagem é, antes de tudo, um exercício de cuidado humanizado e responsabilidade social. Para ela, ensinar, assistir e lutar pela profissão são dimensões inseparáveis de um mesmo propósito: garantir às mulheres um parto seguro, respeitoso e digno, e às novas gerações de enfermeiras obstetras, um caminho mais sólido e reconhecido.
- O que a motivou a escrever “A arte de partejar e a sua interface com a Abenfo-PI” e por que sentiu que este era o momento certo para registrar essa trajetória?

A proposta do livro nasceu após a apresentação da live “A arte de partejar: experiências exitosas na formação, atuação e desafios da Enfermagem Obstétrica no Piauí”, realizada em setembro de 2024, durante o XI Enonepi, em Parnaíba. Entretanto, o desejo de escrever sobre a história da Enfermagem Obstétrica do Piauí já existia desde 2016. Antes do meu afastamento da Universidade Federal do Piauí (UFPI), elaborei, junto às professoras Inez Sampaio Nery e Ivanilda Sepúlveda, um esboço do que poderia se tornar essa obra. O projeto foi interrompido devido a outras demandas acadêmicas e à aposentadoria. Ao retornar à docência, senti que precisava transformar esse sonho em legado. O livro representa a preservação de memórias construídas na academia e no movimento associativo, especialmente na ABENFO-PI. É um presente para os alunos da graduação e, sobretudo, para os pós-graduandos em Enfermagem Obstétrica, que precisam conhecer a história que pavimentou os caminhos atuais.
- Quais foram os principais desafios enfrentados para afirmar o protagonismo da enfermeira obstetra?
No início dos anos 2000, a formação em Enfermagem Obstétrica enfrentava um modelo fortemente biomédico, centrado no poder do ato médico. A ideia de que “o parto era um ato médico” limitava a atuação das enfermeiras obstetras e dificultava a implementação das boas práticas. Diante da ausência de campo de estágio em sala de parto e da escassez de preceptores, a ABENFO-PI firmou convênio com o Hospital Sofia Feldman, referência nacional em humanização do parto. Entre 2002 e 2005, alunos das turmas de especialização vivenciaram experiências transformadoras, tornando-se multiplicadores das boas práticas no Piauí. Esse movimento foi fundamental para consolidar o protagonismo da enfermeira obstetra no estado.
- O que suas experiências no Brasil e no exterior lhe ensinaram sobre o cuidado e a humanização?
Vivências no Hospital Sofia Feldman, na Casa de Parto David Capistrano Filho e em casas de parto e maternidades no Japão foram decisivas na minha formação. Aprendi que o parto deve ser conduzido com respeito, técnicas baseadas em evidências e acolhimento. Essas experiências me tornaram uma profissional mais segura e um ser humano melhor. Trouxe para o Piauí a convicção de que era possível transformar a realidade local, promovendo um modelo centrado na mulher e na dignidade do nascimento.
- Por que foi importante unir vida profissional e vida pessoal na obra?
Minha trajetória na humanização do parto também atravessa minha história como mãe e avó. Em 2003, acompanhei o nascimento da minha primeira neta sob o modelo biomédico tradicional, marcado por intervenções. Senti-me impotente diante daquele cenário. Já em 2015, vivenciei o nascimento de outra neta no II Centro de Parto Normal da Maternidade Dona Evangelina Rosa, em um parto verticalizado, humanizado e respeitoso. Recebê-la nos braços foi um marco profissional e pessoal. Não havia como escrever um livro sobre minha atuação sem registrar a emoção de viver a humanização dentro da minha própria família. Trata-se de um projeto profissional, mas também de vida.
- O que representou para a ABENFO-PI sediar o VI Congresso Brasileiro de Obstetrizes e Enfermeiras Obstetras (VI COBEON)?
Sediar o VI COBEON foi um divisor de águas. O evento reuniu mais de mil participantes de diversos estados e países vizinhos, dando visibilidade nacional e internacional à Enfermagem Obstétrica do Piauí. Após o congresso, houve avanços significativos, inclusive com a criação de turmas de especialização por meio de convênio entre SESAPI, ABENFO-PI e UFPI. A profissão saiu da invisibilidade e ampliou sua atuação para além da capital, impactando diretamente os indicadores de morbimortalidade materna e neonatal.
- Qual foi o papel da Maternidade Dona Evangelina Rosa nessa trajetória?
A Maternidade Dona Evangelina Rosa foi um cenário central na consolidação da Enfermagem Obstétrica no estado. Campo de estágio e espaço de implantação de políticas públicas, a instituição participou da implementação do Acolhimento com Classificação de Risco e da adesão à Rede Cegonha. Em 2012, também foi implantada a Residência em Enfermagem Obstétrica, fortalecendo a formação especializada e ampliando o impacto no SUS. A maternidade, aliada à universidade e às entidades de classe, tornou-se protagonista na mudança do modelo assistencial.
- Que mensagem deixa às novas gerações de enfermeiras obstetras?
Peço que lutem pela Reforma Obstétrica em nosso país. Os avanços conquistados foram fruto de ação coletiva, da coragem de mulheres determinadas que acreditaram na humanização. Às jovens colegas: sigam firmes em suas batalhas individuais, mas nunca esqueçam o projeto coletivo maior — aquele que protege a mulher em trabalho de parto e o neonato, especialmente os mais vulneráveis.
- Como avalia a importância do Coren-PI e do Cofen para a Enfermagem Obstétrica?
A atuação do Conselho Regional de Enfermagem do Piauí está diretamente vinculada ao Conselho Federal de Enfermagem, responsável por resoluções que regulamentam a prática da Enfermagem Obstétrica. Destacam-se a Resolução nº 516/2016, que regulamenta a atuação no parto de risco habitual; a Resolução nº 627/2022, que autoriza a ultrassonografia obstétrica; e a Resolução nº 690/2022, que fortalece o planejamento reprodutivo, incluindo a inserção e retirada de DIU. Além da regulamentação, o Coren-PI foi parceiro da ABENFO-PI na organização das Marchas pela Humanização do Parto, fortalecendo o debate público e ampliando o reconhecimento social da profissão. A atuação conjunta do Cofen e do Coren-PI foi decisiva para o avanço técnico, político e social da Enfermagem Obstétrica no Piauí e no Brasil.